O Iato das Ruínas
O sol de Gaza não aquece; ele apenas expõe. A poeira de concreto tem um cheiro específico de calcário e ferro queimado. Um homem de casaco cinza caminhava sobre o que um dia foi a esquina de uma farmácia. Ele parou diante de um bloco de cimento onde uma barra de ferro retorcida apontava para o céu, como um dedo acusador.
— "Você acha que eles ainda estão lá embaixo?" — perguntou o guia, um rapaz jovem com os olhos vermelhos de sono.
— "Não há mais ninguém respirando sob esse peso," — o homem respondeu. Ele não olhou para o rapaz. Olhava para um sapato infantil, azul, preso entre dois tijolos.
No Irã, o silêncio nas praças de Teerã era diferente, mas o peso era o mesmo. O medo é um tipo de entulho que não se vê, mas que impede o passo. As pessoas andam rápido. Elas não olham nos olhos.
Minha opinião sincera: o mundo hoje parece ter sido escrito por alguém que às vezes confiava tanto na própria genialidade que esquecia que, sem uma boa "ponte", o leitor fica perdido. Os líderes desenham estratégias de guerra no topo de suas montanhas, acreditando que a lógica do poder é absoluta. Eles ignoram a ponte entre a teoria e a vida humana no chão. Sem essa conexão, o que sobra é o caos.
— "Onde vamos dormir hoje?" — o jovem perguntou de novo.
— "Onde o teto não caiu."
— "Não sobrou quase nada com teto."
— "Então dormiremos olhando as estrelas. Elas não mudaram."
O diálogo era curto porque as palavras longas exigem energia que eles não tinham. Cada frase era um corte. O mundo se tornou um grande iceberg onde a política e os discursos são a ponta visível, mas a dor, o luto e a fome são os labirintos submersos que ninguém quer medir. É como um iato que dura para sempre — uma pausa entre o que o mundo era e o que ele se tornou, onde ninguém sabe quando a próxima frase de paz será dita. Ou se ainda resta alguém para ouvi-la.